segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

"O PÓS-ESCRITO COMUNISTA" de Boris Groys (1)



Boris Groys, nasceu na URSS em 1947 e emigrou em 1981 para a Alemanha. É professor universitário de filosofia da arte.
Publicou em 2006 um muito interessante livro de análise político-filosófica do comunismo, Das Kommunistische
Postskriptum, posteriormente traduzido em diversas línguas. Apesar da sua surpreendente tese sobre o fim do comunismo
na URSS e na China, não está publicado em Portugal. Parafraseando J.P. Sartre, é preciso não lançar no desespero a
intelectualidade esquerdista cá do burgo.
Da edição inglesa, The Communist Postscript de 2009, traduzo uns quantos excertos.
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Introdução

O assunto deste livro é o comunismo. A maneira de falar do comunismo depende do que se considera ser o comunismo. No
que se segue, considerarei que o comunismo é o projecto de subordinação da economia à política, afim de permitir que a
política actue livre e soberanamente. A economia funciona por meio do dinheiro. Trabalha com números. A política funciona
por meio da linguagem. Trabalha com palavras - com argumentos, programas e petições, mas também com ordens,
proibições, resoluções e decretos. A revolução comunista é a transcrição da sociedade do meio do dinheiro para o meio da
linguagem.
(...)
Os processos económicos são anónimos, e não expressados em palavras. Por esta razão não se pode discutir com processos
económicos; não se pode alterar a sua mentalidade, convencê-los, persuadi-los, usar palavras para os levar a alinhar
connosco. Tudo o que se pode fazer é adaptar o nosso comportamento ao que está ocorrendo. O falhanço económico não
tolera argumentos, tal como o sucesso económico não requer qualquer justificação discursiva adicional. No capitalismo, a
confirmação ou refutação última da actuação humana não é linguística mas económica. A força da linguagem é por isso
anulada.
(...)
A crítica do capitalismo não funciona no mesmo meio que o próprio capitalismo. Em termos dos seus meios, o capitalismo e a
sua crítica discursiva são incompatíveis e assim nunca se podem encontrar. A sociedade tem de primeiro ser alterada pela
sua linguistificação para poder ser objecto de qualquer crítica com significado. Assim podemos reformular a famosa tese de
Marx de que a filosofia deveria não interpretar o mundo mas mudá-lo: para que a sociedade possa ser sujeita a crítica, ela
primeiro tem de se tornar comunista. Isto explica a preferência instintiva pelo comunismo sentida por todos os dotados com
consciência crítica, pois só o comunismo executa a total linguistificação do destino humano e abre assim espaço para uma
crítica total.
(...)
A União Soviética avançou mais do que qualquer outra sociedade historicamente precedente para a realização do projecto
comunista. Durante os anos de 1930 toda a espécie de propriedade privada foi completamente abolida. A liderança política
ganhou assim a possibilidade de tomar decisões independentemente de quaisquer interesses económicos particulares. Mas
não se tratava apenas de esses interesses económicos terem sido suprimidos; eles simplesmente já não existiam. Cada
cidadão da União Soviética trabalhava como empregado do estado Soviético, vivia em casas que pertenciam ao estado,
comprava em lojas do estado e viajava através do território do estado em transportes operados pelo estado.
(...)



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