sexta-feira, 9 de dezembro de 2011


Mário Soares, a inesgotável verborreia

                                                                                        [A cat can look at a king – prov. inglês]            


Mário Soares continua incansavelmente a trabalhar para a preservação da sua memória e do que pretende que seja o seu lugar na História, produzindo escritos após escritos. O último é uma autobiografia de 542 páginas, que se vem juntar à entrevista a Maria João Avillez, 3 volumes num total de 1345 páginas. E há ainda uma copiosa colecção de discursos, de intervenções (só as proferidas enquanto Presidente da República ocupam 10 volumes), e mais entrevistas, e artigos, e livros em colaboração, etc., totalizando muitos milhares de páginas. Tudo está certamente cuidadosamente guardado e catalogado na sua Fundação, à disposição dos inúmeros estudos e teses que virão a alimentar.
Segundo a recensão desta autobiografia, publicada no último “Expresso”, nela Mário Soares critica Cavaco, Sampaio, Eanes, Guterres e Barroso; Constâncio e Manuel Alegre são praticamente ignorados, de Ferro Rodrigues não fala, e Salgado Zenha continua imperdoado. Ah, mas José Sócrates é elogiado!
(Parafraseando um conhecido ditado - Diz-me quem elogias, dir-te-ei quem és…)
A Mário Soares devemos a frente determinada que fez a Álvaro Cunhal e ao PCP durante o PREC. E a isso ficou ele a dever todos os cargos e honrarias que desde então lhe propiciamos, mais a sólida reputação de ser um indefectível democrata.
Mas, sê-lo-á tanto assim?
A oposição a Salazar e ao Cunhal seria de tal prova; mas o que dizer das suas maquinações e conspirações contra Eanes, Cavaco, Salgado Zenha e Manuel Alegre, personalidades que não se pode sem forçar a nota classificar como não-democratas? Foi a sua paixão democrática que o motivou, ou apenas a vontade de evitar que houvesse vultos que com ele pudessem ombrear, diminuindo assim a sua estatura na história do pós-25 de Abril? Parece ter havido nestes casos muito de objectivos pessoais e muito pouco de convicções democráticas.
Mário Soares teve um período de grandeza, surgindo então como um grande estadista e homem de elevados princípios. A sua carreira posterior desmereceu-o, mergulhando em politiquices, intrigalhadas, baixas conspirações, facadas nas costas, demagogias e populismos vários, que o apoucaram.
Mário Soares é reconhecidamente vaidoso, e ostenta perante os seus adversários uma arrogância escarninha; a modéstia e a humildade não se contam de todo entre as suas virtudes.
“Há evidentemente muitas e grandes virtudes democráticas – entre elas a veracidade, a misericórdia, a tolerância, a coragem – mas a virtude cardeal da democracia é a humildade” (John Keane)
Pode Mário Soares em consciência reconhecer-se nesta afirmação?


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