quinta-feira, 29 de abril de 2010

Solilóquio de um perplexo



por Hans Magnus Enzensberger, 2001



Nós somos uns, e os outros são os outros. Isto assim é bem claro! Os outros estão sempre aí, e enervam-nos. Não conseguem deixar-nos em sossego! Se ao menos fossem diferentes, ainda se toleraria. Mas não, convenceram-se de que são os melhores. Os outros são arrogantes, sabem tudo melhor, não nos suportam. É difícil dizer o que eles verdadeiramente pensam. Por vezes temos a impressão de que são loucos. Uma coisa é certa: eles querem algo de nós, não nos deixam em paz. É provocante a maneira como nos avaliam, como se tivéssemos fugido de um Jardim Zoológico ou como se fôssemos de outro mundo. O menos que se pode dizer é: sentimo-nos ameaçados por eles. Se não nos acautelássemos, tirar-nos-iam tudo o que temos. Idealmente, matar-nos-iam.
Por outro lado, já não conseguimos imaginar um mundo sem os outros. Há mesmo quem afirme que necessitamos deles. Gastamos toda a nossa energia com os outros, durante todo o dia, e até mesmo à noite pensamos neles. Embora não os possamos suportar, dependemos deles. Naturalmente que ficaríamos contentes se se fossem embora, para um sítio qualquer onde já não os tivessemos de ver. Mas, e então? Ou tinhamos uns quaisquer outros às costas, e voltava tudo ao princípio, teríamos de avaliar os novos outros e contra eles nos acautelarmos, ou ainda pior: começaríamos a brigar entre nós, e então naturalmente que alguns de nós seriam os outros, e teríamos acabado com os nossos nós.
Por vezes pergunto-me se verdadeiramente somos os uns. Pois que naturalmente somos ao mesmo tempo os outros dos outros. Também eles necessitam de alguém que não possam suportar, e esses seguramente que somos nós. Não só nós estamos dependurados deles, eles da mesma forma estão dependurados em nós, e certamente que ficariam contentes se nos fôssemos embora, para um sítio qualquer onde já não nos tivessem de ver. Mas então seguramente que sentiriam a nossa falta. Mal se tivessem livrado de nós, começariam a lutar ferozmente entre eles, tal e qual como nós, quando os outros desaparecessem.
Claro que não posso dizer isto em voz alta entre nós, é apenas uma suposição minha, que é melhor guardar para mim. Pois de contrário todos diriam: agora ficamos a saber, meu caro! Tu verdadeiramente não és um de nós, nunca foste, tu enganaste-nos! Tu és um dos outros! E então estava tramado. Torcer-me-iam o pescoço, é mais que certo. Não deveria mesmo pensar tanto nisto, não é saudável.
Mas talvez até tivessem razão, os meus. Por vezes já eu próprio não sei bem, se sou um dos uns ou um dos outros. E isso é o pior. Quanto mais nisto matuto, tanto mais me é difícil distinguir entre uns e outros. Cada um dos uns se parece, quando olhado com atenção, extraordinariamente com os outros, e vice-versa. Por vezes já eu próprio não sei bem, se sou um dos uns ou um dos outros.
O melhor seria que fosse eu mesmo, mas naturalmente isso é impossível.


Título original “Selbstgespräch ein Verwirrten”, na colectânea de ensaios “Nomaden im Regal”

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