quinta-feira, 14 de maio de 2009

A permanência da pedra



Consideremos um indivíduo, já entrado em anos. É uma daquelas pessoas de convicções políticas extremistas, rigidamente inabaláveis. Pensa agora o que já pensava quando era um jovem. Os anos, os factos, os desmentidos históricos às suas arreigadas crenças passaram por ele em vão, deixando-as incólumes. É o que sempre foi, ou pelo menos assim se encara a si próprio e se dá a ver aos outros. Orgulha-se disso e, por vezes, publicamente manifesta com desafiadora vaidade esse orgulho. Não possui a desculpa da ignorância ou a atenuante da incultura. Não pode sequer ser ilibado pela estupidez, pois é superiormente inteligente. Não é, finalmente, alguém destituído de princípios morais, pois em tudo o resto é de uma irrepreensível rectidão.
A que se deve, então, aquela enormíssima e ostentada mácula?

Escreve Sartre o seguinte, em Réflexions sur la question juive, que transcrevo de Acentos, de Fernando Gil.


“Mas há pessoas que são atraídas pela permanência da pedra. Querem ser maciças e impenetráveis, não querem mudar: aonde as conduziria a mudança? Trata-se de um medo de si original e de um medo da verdade. E o que as assusta não é o conteúdo da verdade, do qual nem sequer suspeitam, mas a própria forma do verdadeiro, esse objecto de indefinida aproximação. Querem adoptar um modo de vida onde o raciocínio e a investigação tenham apenas um papel subordinado, onde se busque apenas o que já foi descoberto, onde nos tornemos unicamente naquilo que já fomos. Esse modo de vida só pode ser o da paixão. Nada, a não ser uma forte prevenção sentimental, nos pode conferir uma certeza fulgurante, só ela pode atilhar o raciocínio, só ela pode permanecer impermeável à experiência e subsistir durante toda a vida.”

2 comentários:

Bekx (JGG) disse...

Não sei porquê mas veio-me logo à cabeça o Saramago!

FKB disse...

O Saramago é um óptimo exemplo da petrificação no comunismo.
Esta questão da fixação para a vida numa qualquer ideologia extremista, e da sua valorização pelos outros, é mais um bom exemplo do condicionamento ideológico das sociedades. Ficando no domínio dos intelectuais; na generalidade do Ocidente, quando se fala do Heidegger, é "de rigueur" começar por lamentar o seu passado nazi e a incompleta abjuração que ele fez do mesmo, antes de o referir como um dos mais importantes filósofos do séc. XX. Já quanto ao Saramago,imediatamente se louva a sua "coerência"...