quarta-feira, 20 de maio de 2009

O problema é a cabeça


As belas almas da ONU, das ONG humanitárias, da Cruz Vermelha Internacional e da UE ficaram consternadas com a derrota final no Sri Lanka da guerrilha tâmil do LTTE. Para trás estão cerca de 30 anos de luta e 75.000 mortos. Mas só agora, na altura da derrota final do LTTE, é que foi proclamado haver aí uma incalculável catástrofe humanitária, com dezenas de milhares de deslocados e alguns milhares de vítimas civis. Ainda tentaram aquelas altas instâncias um cessar-fogo, uma trégua, uma interrupção dos combates, um adiar indefinido do golpe final na guerrilha terrorista. Tudo em vão.
Ah, mas vão ser ordenados inquéritos, apuradas violações dos direitos humanos, e certamente que serão apresentadas, a seu tempo, queixas contra autoridades do Sri Lanka em tribunais internacionais.
E muito mais tarde, daqui a uns quinze ou vinte anos, apadrinharão as mesmas entidades comoventes comissões de reconciliação entre responsáveis tâmiles e cingaleses de agora, em que trémulos e lacrimejantes velhotes contarão, perante um mundo comovido pelo belo espectáculo redentor da confissão e do perdão, como se mataram e torturaram uns aos outros naqueles ominosos tempos passados.
Mas agora, acabou-se! Todos aqueles anos de briosos esforços de alívio humanitário, indistintamente distribuídos a uns e a outros, todas as missões de reconciliação, de harmonização, de pacificação, todos os meetings internacionais, todos os apelos a dadores, todas as recolhas de fundos e de auxílio, chegaram agora ao fim.
Lá terá que ir para outro lado todo esse circo humanitário internacional que vivia do Sri Lanka; mas, felizmente, não lhes faltará para onde. É só escolher.
Apenas há que deixar que os conflitos armados se arrastem lenta e penosamente, evitando que se recorra à revoltante brutalidade de um esforço militar decisivo de uma das partes que lhes ponha cobro de vez, ou menos ainda - safa! - a uma intervenção militar internacional que, pondo-se ao lado dos "bons" (mas quem são eles?), derrote rápida e decisivamente os "maus" (mas é impossível nomeá-los...).
A miséria e a doença perpetuadas, o lento derramar do sangue, o suave acumular dos mortos ao longo dos dias, dos meses, dos anos, tudo isso não nos impressiona demasiadamente; de vez em quando faz-se uma actualização dos números – os mortos no Darfur, por exemplo, passaram nos media recentemente de 200 para 300 mil. Mas não é um genocídio, é só um conflito interno, para nós apenas um mobilizante problema humanitário, como de vez em quando nos recorda in situ um qualquer alto funcionário da ONU ou estrela de Hollywood, com roupas tropicais e olhos humedecidos pela desdita dos refugiados.

Em memória dos Tigres Negros do terrorismo tâmil:

“O problema é a cabeça. É preciso, no momento da explosão, que ela se desprenda bem, que fique intacta e que vá rolar até ao sítio pretendido, decidido antecipadamente pelo Chefe”.

(relato de Srilaya, mulher bombista-suicida arrependida, em conversa com Bernard-Henri Lévy, em “Les Damnés de la guerre”, 2001)

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