quinta-feira, 30 de abril de 2009

Terá a verdade um futuro?

É este o título da última de cinco palestras radiofónicas proferidas por George Steiner (GS) no Canadá, em 1974, agrupadas posteriormente num livro intitulado Nostalgia do Absoluto, publicado ainda em 1974, e em Portugal em 2003, pela editora Relógio d’ Água.
Em 1978 GS reapresenta essa mesma palestra, algo reformulada, sob o mesmo título, numa conferência de homenagem a Jacob Bronowski. As ideias principais expostas em qualquer das duas versões da palestra são idênticas, pelo que usarei indistintamente uma ou outra no resumo que seguidamente faço da mesma.

GS começa por afirmar que a verdade é o objectivo perseguido pelas ciências puras, pela filosofia e pela matemática; e diz-nos que a procura abnegada da verdade abstracta é um fenómeno geográfica e culturalmente localizado, surgido na Grécia no século VI A.C., tendo daí alastrado ao Ocidente. Reforça esta opinião ao afirmar explicitamente que o conceito de verdade como algo sujeito a experimentação e constrangimentos lógicos não é um universal.
Enumera seguidamente os ataques a que tem sido sujeita a verdade, agrupados em quatro categorias:
- o místico e irracionalista, segundo a qual a verdade não é analítica, mas transcendente, vinda não da dedução, mas da iluminação, portanto visionária.
- a dogmática, baseada na revelação sobrenatural e na religiosidade sistemática; as verdades últimas são um monopólio da divindade.
- a romântica e existencial, que postula acima da verdade matemático-científica os valores extáticos da realização pessoal, da bondade, da simplicidade, até mesmo do absurdo.
- a político-dialética, já nos nossos tempos, que argumenta que a lógica, a objectividade, as leis científicas, não são nem eternas nem neutras, mas sim contingentes, dependentes das relações de poder e dos interesses de classe na sociedade.
Depois GS diz haver uma outra linha hodierna de objecções à procura obstinada da verdade; o receio de que se venham a revelar factos inconvenientes aos ideais de justiça social, verdades com as quais a sociedade não poderá conviver, como se certas ordens de verdade se tivessem tornado irreconciliáveis com o homem. E cita três exemplos:
- o primeiro, embora como diz absurdamente remoto, o da extinção “entrópica” do universo, enunciada por Bertrand Russell.
- o segundo, a possibilidade de se tornar inequivocamente manifesto que a agressão e a violência são um elemento integral da natureza humana, a expressão de necessidades e características instintivas, tornando assim qualquer ambição de paz e convivência pacífica entre os homens uma miragem infundamentada.
- o terceiro, a questão da hereditariedade e meio ambiente, onde se pode a vir tornar manifesto que há características inatas, que estão etnicamente desigualmente repartidas, em que por exemplo uma estirpe étnica produzirá sempre os melhores saltadores em altura enquanto que outro grupo étnico continuará a produzir teoremas de matemática pura.
De tudo isto decorreria uma visão alternativa, contemporânea, que declara que a ciência se deve tornar socialmente reponsável, que deve estabelecer limites, adoptar enfim uma escala humana.
Afirma GS que tal propósito não resultará, primeiro porque a ciência pura é inerente ao desenvolvimento da física, da química, da biologia, da astronomia, e depois porque a obsessão com a verdade objectiva e abstracta está impressa na mente ocidental. Não pela fama, nem para benefício da humanidade, nem em nome da justiça social ou do lucro, mas por uma motivação mais forte que o amor ou que o ódio, que é a de estar interessado em algo.
E GS conclui: a dignidade maior da nossa espécie é perseguir a verdade abnegadamente. A verdade tem um futuro, sendo menos claro se o homem o terá. “Mas não consigo impedir-me de ter um palpite quanto a qual dos dois será mais importante.”

Tudo o que aqui vai já há trinta e tal anos era arriscado dizer-se; hoje em dia valeria a GS ser queimado vivo nas fogueiras inquisitoriais do politicamente correcto. Não admira pois que em 2007, na conferência organizada pela FC Gulbenkian sobre o tema “Terá a ciência limites?”, só muito ao de leve ressoassem, na exposição aí apresentada por GS, as suas fortes afirmações de então. Mas lá lhe escapou, e logo no início, a menção à “western pursuit of pure science”…

A ciência continua a desenvolver-se irrestritamente, apesar das contemporâneas piedades; hoje em dia a fronteira do conflito entre a ciência e a sociedade está sobretudo na engenharia genética, em todas as frentes em que esta se vai desenvolvendo – clonagem, organismos geneticamente modificados, manipulação do ADN humano, etc. Grupos de bioética tentam acompanhar e se possível controlar a situação, mas calcula-se que sem grande êxito, pois lá se vai aliciando a opinião pública com as promessas do fim das doenças, da velhice e da morte, suficientemente tentadoras para garantirem o distanciamento dos políticos e o sossego dos investigadores.

E a verdade? É algo que realmente existe, independentemente de haver ou não seres humanos, e que está aí para ser descoberta por nós, e cuja descoberta obceca alguns enquanto que a outros é indiferente? Ou é apenas um conjunto de convenções e acordos sociais, mutáveis com os tempos e as sociedades, que morrerão com a humanidade?
Uma coisa é certa; vivemos num mundo artificial, feito de objectos tecnológicos com os mais diversos graus de sofisticação, que outra coisa não são que verdades científicas coisificadas.
Será pois preciso ter um grande grau de descaramento ou de alheamento para se poder afirmar que a verdade objectiva não existe.

2 comentários:

akb disse...

vivemos num mundo artificial mas as espécies continuam a sua evolução natural, como dizias noutro texto?

FKB disse...

O nosso habitat passou a ser, e desde há já vários milénios, algo de construído, e equipado com artefactos sempre mais numerosos e sofisticados. É essa a diferença maior entre nós e todas as outras espécies. E continuam todos os seres vivos, humanos incluídos, sujeitos à evolução. Mas como disse, e foi esse o ponto que pretendi sublinhar no outro texto, não é tal fenómeno coisa que se possa apreciar no espaço de uma ou mesmo de várias vidas humanas.