domingo, 29 de março de 2009

Bento XVI, a SIDA e os preservativos.

O Papa na sua recente visita a África, e em resposta a uma pergunta que lhe foi colocada, sobre o uso de preservativos no combate à SIDA, disse que não os considerava úteis para ultrapassar a epidemia, e que o seu uso até agravava a situação.
Imediatamente a esquerda moderna, laica e ocidental, e as gentes desempoeiradas em geral, amplificados pelas usuais caixas de ressonância, explodiu de virtuosa indignação perante essas afirmações, consideradas no mínimo infundadas e no máximo criminosas. Por pouco não se responsabilizou o Papa e a Igreja Católica pelo actual estado da doença em África, onde se considera haver 22,5 milhões de infectados com o HIV e onde cerca de 20 milhões de pessoa já morreram com SIDA.
Quanto à primeira parte da afirmação do Papa, os números atrás referidos sobre o impacto da doença em África, onde já se distribuíram incontáveis milhões de preservativos sem que a progressão da doença regredisse ou sequer abrandasse, parecem dar-lhe razão.
A SIDA é uma doença venérea e contagiosa; faz todo o sentido portanto aconselhar comportamentos sexuais prudentes (abstinência, monogamia, fidelidade) para evitar a propagação da epidemia. Ora divulgar o conceito de que o uso dos preservativos é o melhor meio de evitar a disseminação da doença equivale a dizer às pessoas: sejam promíscuos, façam sexo quando quiserem e seja lá com quem for – usem apenas esta borrachinha mágica, e não terão problemas!
Mensagem errada, pois está apurado que a efectividade do preservativo, até por não ser sempre usado, é apenas de 80 a 90%. Dá uma falsa sensação de segurança, que os factos desmentem.
A recomendação do uso do preservativo para prevenir a propagação da SIDA é pelo menos tão ideologicamente motivada como a posição da Igreja Católica sobre o assunto, senão mesmo mais: tem a ver com a libertação sexual dos anos 60, com a arreigada defesa do amor livre e do sexo recreativo, tão caro à geração do Woodstock e do Maio 68.
E aos desgraçados africanos, a quem já vitimamos com a colonização e com a descolonização, a quem impomos relações comerciais injustas, geradoras de fome e miséria, a quem não protegemos de tiranos e de genocidas, a quem não fornecemos os meios de tratamento contra as inúmeras e horrorosas doenças que os vitimam, vamos ainda por cima pedir que se abstenham dos prazeres do sexo? Nem pensar, isso é que seria uma desumana crueldade - venham daí preservativos em abundância, que até são baratinhos, e façam-nos o favor de ser felizes!
Esta actual discussão a pretexto da prevenção da SIDA em África é apenas mais um episódio da eterna luta entre o princípio do prazer e o princípio da realidade (Freud), no caso vertente representados respectivamente pelos “modernos” e pela Igreja Católica.
Mas é sabido que a possibilidade da civilização assenta precisamente na prevalência do princípio da realidade; pretender o contrário só serve para dificultar e agravar os custos humanos da vida em sociedade, como tão bem é demonstrado pelo insucesso da luta contra a SIDA em África.

2 comentários:

akb disse...

mais uma vez os merdia amplificaram um excerto das declarações do gajo, que quase ficam descontextualizadas, e tudo o resto fica ignorado/escondido.
após essas declarações preservativo o papa apontava como propostas de solução: "Primeiro, uma humanização da sexualidade, isto é, uma renovação espiritual e humana que inclua um novo modo de comportar-se um com o outro; segundo, uma verdadeira amizade também e sobretudo pelas pessoas que sofrem"

FKB disse...

Totalmente de acordo; relembro o que escrevi no 1º post deste blog; podemos sempre contar com os jornalistas para protegerem a nossa ignorância.