sábado, 14 de fevereiro de 2009

A preservação da biodiversidade

Sob esta anódina designação esconde-se mais uma utopia, fruto das angústias contemporâneas das classes média e alta dos países ricos do Ocidente, desta feita debruçadas sobre a Terra: trata-se nem mais nem menos do que parar a evolução das espécies, no seu estado presente (pois que, infelizmente, não se consegue recuar a natureza para a situação existente antes do aparecimento do Homo sapiens, única espécie cuja extinção, com a evidente excepção das suas notáveis pessoas e de alguns pitorescos povos indígenas, pouco populosos, consideram desejável).
A Terra convertida na sua totalidade num Jardim Zoológico implantado num Jardim Botânico, um e outro imobilizados para sempre no tempo, com a humanidade reduzida a sábios contemplativos e bons selvagens; é um belo programa utópico!
O Darwin não deixaria de achar muito acientífica tão piedosa intenção, que atribuiria, acertadamente, ou a um qualquer atavismo panteísta ou a uma debilitante incapacidade mental.
A coisa começou assim: escolheram-se para cabeça de cartaz dos movimentos ecológicos radicais ou uns fotogénicos bichos, tipo panda e urso polar, nos seus habitats, ou umas paisagens deslumbrantes, sempre inter-tropicais ou árcticas, pois porcos, vacas, milharais dos EUA ou pinhais europeus não são suficientemente galvanizantes, dada a sua evidente robustez e falta de biodiversidade.
E a pretexto da salvaguarda daqueles simpáticos animais ou inebriantes paisagens, claro que sempre em risco iminente de extinção ou destruição pela desapiedada intervenção humana, criaram-se uns poderosos lobbies, com a missão de levantar os maiores entraves a tudo o que for projecto de desenvolvimento, seja lá do que for, sobretudo quando destinados a locais perto das residências dos seus mentores.
Poder-se-ia pensar que este estado de coisas se tornou muito inconveniente para os governos dos países afectados. Mas não; souberam muito habilmente transformar essa ameaça em oportunidade, criando ad-hoc uma enredada e inexpugnável legislação “ambiental” e tirando daí o melhor proveito; pois tudo isso veio criar empregos, no Estado e fora dele, rendimentos adicionais em taxas e impostos, justificar mais cursos e respectivo professorado, dar assunto cativante aos media, melhorar a imagem de políticos e partidos, fornecer causas a activistas desocupados, etc.
Em resultado dessa nova teia legislativa um qualquer projecto, por mais bem elaborado que seja o labiríntico processo do seu licenciamento, pode sempre ser proibido. A mais escandalosa subjectividade reina nesses elevados domínios, acima de qualquer pretensão de racionalidade, sob a alta égide do “princípio” da precaução, recurso final e irrespondível para calar de vez o frustrado requerente do projecto.
E quando se quizer na realidade construir ou fabricar qualquer coisa, apesar de todas as barreiras “ambientalistas”? Oh, é muito fácil; conhecendo as pessoas certas e os caminhos correctos que a elas levam, e graças precisamente à falta de regras claras e objectivas nesse sofisticado domínio – voilá! - o que poderia antes parecer que era impossível de se obter aparece celeremente autorizado. Pois, como é bem sabido, o verdadeiro poder consiste em decretar excepções; o exacto cumprimento de leis e regulamentos é apenas para súbditos.
Dispenso-me de dar exemplos; vão lendo jornais e vendo televisão.

2 comentários:

akb disse...

quero apenas comentar duas expressões do 1º parágrafo.
a) dizes que a utopia consiste em “parar a evolução das espécies” mas julgo que a utopia descreve-la mais à frente: “a humanidade reduzida a sábios contemplativos e bons selvagens”.
quando falas em “parar a evolução das espécies” estás a dar a tua opinião sobre o que se está a passar, parecendo-me que reconheces isto, o presente, como sendo parte duma suposta evolução natural. ora, a esta altura do campeonato, de natural isto já tem muito pouco. é tão natural como o plástico. uma função e a sua derivada, embora estejam relacionadas, não são a mesma coisa.
(como li não sei onde: “uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa” :)
b) o darwin, como tipo racional que era, sabia que o homem era (é) um animal. apesar de termos vidas completamente dependentes da tecnologia e de pretendermos disfarçar ou esquecer a nossa origem, temos esses comportamentos atávicos , não necessariamente panteístas, mas sem dúvida reminiscentes do tempo em que caçávamos, andávamos mais próximos da natureza, etc. acho normal que assim seja, ou natural, e possivelmente o darwin também o acharia.

FKB disse...

Mais ou menos todas as utopias têm em comum o querer parar o desenrolar do tempo, fixando o mundo, a sociedade, agora a natureza, num estado fixo e imutável, considerado o melhor dos melhores.
A evolução comporta a extinção de algumas espécies e o surgir de outras ("speciation") a partir das existentes.
Os ecologistas querem à viva força evitar, já e agora, que se extinga seja que espécie for de ser vivo. Querem portanto parar a evolução, pelo lado da extinção, na sua fase actual.
Quem lhes disse que o tempo presente é o óptimo da vida na Terra?
É um intuito anti-científico, e portanto utópico. Era esse o ponto que queria frizar no post.
Já agora, a unidade da escala de tempo do fenómeno evolutivo é o milhão de anos...