terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Os Linces milionários

Noticia o “Público” de 16 de Fevereiro de 2009 que até 2011 vão ser gastos 25,6 milhões de euros para a recuperação do Lince Ibérico (Lynx pardinus), apenas especificando que 1,2 milhões de euros vêm da UE. Donde vem o resto? Pode-se admitir que da nossa algibeirinha colectiva, talvez portuguesa e espanhola, pois este programa mete a Andaluzia. Não perpassa pelo artigo a menor sombra de crítica a tal projecto.
Se no mesmo sítio e com o mesmo destaque se noticiasse que ao Conselho de Administração do Banco X tinha sido atribuída a remuneração global para o triénio 2009-2011 de 25,6 milhões de euros, não faltaria logo ali a crítica feroz – como é possível que em tempo de tamanha crise se decidam gastar tais verbas para tal fim?! Note-se no entanto que no caso do Banco X essa verba seria suportada pelo lucro dos seus accionistas, não por todos nós, e que se os clientes e depositantes do Banco não gostassem da decisão poderiam aplaudi-la com os pés, passando os seus negócios e contas para os Bancos Y ou Z.
Podemos nós, portugueses e andaluzes, dizer que não, que não queremos que se gaste esse dinheiro com os linces, mas em vez disso que sirva para apoio aos desempregados, cá e lá, durante esta difícil travessia da crise? Lá poder, podemos, mas aposto que sem qualquer efeito prático. Os que protestarem apenas revelerão a sua falta de sensibilidade ecológica...
É este um bom exemplo do ecologismo descabelado a que me referi anteriormente.

6 comentários:

Bekx (JGG) disse...

Eu por acaso sou suspeito pois gosto muito do lince ibérico e acho que qualquer esforço que seja feito para preservar a espécie será bem-vindo. A questão do dinheiro envolvido afigura-se-me de somenos importância aqui. São 25 como poderiam ser 50 ou 100 milhões. A maneira como são escolhidas as prioridades de investimento do dinheiro público não garante que sejam aplicadas em coisas importantes. Só o BPN e o BPP já levaram mais de 1800 milhões de euros para salvar outro tipo de animais que até deviam ser extintos.:)

Bekx (JGG) disse...

Em relação às verbas, parece que não é grave:

"Este Centro é uma obrigação decorrente das medidas de compensação da Barragem de Odelouca, resulta igualmente do “Acordo entre Portugal e Espanha para a Criação em Cativeiro do Lince-ibérico” assinado em 31 de Agosto de 2007, que constitui a base para a participação de Portugal nesse programa de reprodução e integra-se no Plano de Acção para a Conservação do Lince-ibérico (Lynx pardinus) em Portugal publicado no Despacho n.º 12697/2008.

O CNRLI será construído com co-financiamento comunitário (Programa Ambiente) e, tal como as medidas de conservação in situ para a zona de Odelouca, está a cargo das Águas do Algarve.

Link do ICN acerca do assunto:

http://portal.icnb.pt/ICNPortal/vPT2007/O+ICNB/Centro+de+Documentacao/Noticias+-+Arquivo/Detalhe+Noticia/Centro+Nac+Recu+Lince+iberico.htm

e aqui está o Despacho:

http://dre.pt/pdf2sdip/2008/05/087000000/2017520180.pdf

akb disse...

num país onde, em nome duma suposta racionalização de custos, se fecham escolas e hospitais no interior, gasta-se 25M€ num casal de linces...

já agora, a águas do algarve é uma empresa detida em cerca de 50% pelas autarquias e outros 50 pela águas de portugal, a qual julgo que ainda não foi privatizada. o dinheiro, por um lado ou por outro, é dos contribuintes.

isto é a ponta do icebergue, porque o lince é (era?) um animal bonito e fotogénico, é bastante mediático. outros há que não aparecem tanto nas notícias. a semana passada fui visitar uma barragem que se está a terminar de construir no distrito de lamego. o custo da barragem ronda os 5M€. ora, os nossos poderosos ambientalistas obrigaram (não encontro outra palavra) ao projecto e construção duma sofisticada comporta e um canal para que uma toupeira-de-água (ou uma espécie de rato aquático) não se sinta constrangida pela grande massa de água da albufeira e possa nadar mais à vontade nesse tal canal. custo: outros 5M€, dobrando o valor da empreitada.

FKB disse...

Dê o dinheiro as voltas que der, mais UE ou menos nacional, é sempre dinheiro de contribuintes. Circunstâncias alteradas exigem medidas adaptadas em conformidade.
A multiplicação dos linces deveria ficar para mais tarde,e o dinheiro que agora se vai gastar nisso ir, por ex., para apoio aos desempregados.

Joaquim Gagliardini Graça disse...

Eu percebo que o que está em questão são as prioridades no gasto do dinheiro público.
Por princípio sou contra a presença do Estado em muitos sectores onde gasta milhões sem qualquer eficiência ou eficácia visíveis ou onde privados fariam bastante melhor. Falo da saúde, por exemplo, onde acho que em lugar de financiar hospitais deveria financiar os utentes e deixar o resto com privados.
O mesmo se passa com aeroportos, tgv's e muitas outras áreas onde o Estado não deveria estar presente.
Quanto aos desempregados, não têm faltado milhões para apoiar empresas sem viabilidade bem como para subsídios e rendimentos mínimos garantidos, verbas essas que contribuem ainda mais para o afundar da situação económica e para o clientelismo em que nos habituámos a viver. O caso dos bancos tem sido absolutamente vergonhoso. Alguém disse que o capitalismo sem a falência é como a religião sem inferno.
Só quero deixar claro que o Ambiente é uma área onde considero essencial a presença do Estado. Como tal prefiro sempre vê-lo investir no Lince ou no Caracol da Serra do Caldeirão a ver o dinheiro esbanjado em áreas onde nunca deveria estar presente.
No que me diz respeito, o Estado só deveria estar presente em áreas de soberania como a Justiça, Segurança, Defesa e no Ambiente, Educação e Obras Públicas estruturantes.
Se gastasse apenas onde devia poderia aliviar a enorme carga fiscal que estrangula empresas e particulares e libertá-los da sua presença asfixiante nas suas vidas.
Sou absolutamente contra este modelo social. O apoio aos desempregados fornecido por esta espécie de estado-muleta é uma das grandes causas do nosso atraso.

FKB disse...

Há um mínimo de apoio social que um estado civilizado deve prestar aos seus cidadãos em situações de necessidade, situações essas que evidentemente tem a obrigação de saber distinguir dos casos de puro parasitismo social. Esse apoio deve ser dado, se não se quiserem invocar considerações éticas, então por razões eminentemente práticas (tais como evitar perturbações da ordem pública, ou o aumento da mendicidade e criminalidade, ou a reprovação interna e externa, etc.)
Portanto continuo a achar que aqui e agora os desempregados em situação de legítima necessidade, e suas famílias, devem ter absoluta prioridade sobre a multiplicação dos linces.