sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Nazis e Comunistas

Num encontro eventual de pessoas que não se conhecem e se acham momentâneamente juntas, por exemplo à espera que se abram as portas para uma exposição ou para um qualquer espectáculo, e que em pequenos grupos casuais onde se vão esboçando conversas aguardam a hora da entrada, alguém ao nosso lado sonoramente diz,
- O Hitler era um grande homem!
Sobressaltados, olhamos, à espera de ver um abrutalhado skinhead, de Doc Martens e suásticas tatuadas na nuca; mas não, quem tal disse ou é um conhecido filósofo, ou talvez um reputado historiador, que nada ignora dos crimes do nazismo e nem se quer se dá ao trabalho de negar o Holocausto.
Sem uma palavra, saímos dessa repelente companhia e cabisbaixos acercamo-nos doutro grupo, no qual nesse momento um dos presentes afirma,
- Sempre fui, sou, e serei até morrer comunista...
A orgulhosa declaração não vem de um velho operário de poucas luzes, amargurado por anos de miséria e humilhações às mãos de inescrupulosos patrões; trata-se ou de um escritor de sucesso, ou de um sofisticado ensaísta, ou talvez mesmo de um nobelizado, que nada ignora dos crimes do comunismo. E como quando o fitamos nos olha de frente, como que à espera de uma réplica, pronunciamos uma qualquer frase adequada, e durante alguns minutos mais entabulamos uma conversa civilizada, interrompida apenas ao começar a função que aguardávamos.
Mais tarde contaremos mesmo, lisonjeados, aos amigos,
- sabes, outro dia conheci Fulano, e conversamos um pouco. É na verdade uma pessoa muito interessante!

O que é que aconteceu? Também nós conhecemos os crimes do nazismo e do comunismo, até sabemos que, contados em mortos e em duração, os do comunismo quase decuplicam os do nazismo; pior, os do comunismo ainda continuam contemporâneamente a ocorrer, a gerar mortos e crueldades inomináveis, no exacto momento em que isto escrevemos. E no entanto, fugimos de um e agradadamente falamos com o outro dos acima imaginados personagens.
Será que a simples enunciação dos fins visados, moralmente inaceitáveis os dos nazis – o domínio de uma raça sobre todas as outras – ou moralmente apelativos os dos comunistas – o estabelecimento duma sociedade justa e fraterna de homens iguais – nos faz rejeitar os primeiros e aceitar os segundos, apesar do sangrento desmentido a esses nobres propósitos que foi e é a realidade das sociedades comunistas ?
Ou será que na verdade o extermínio, por mais cruel que seja, dos nossos semelhantes (considerá-las-emos mesmo, a todas essa inumeráveis vítimas, como nossos semelhantes?) não nos afecta por aí além, sendo a empatia um mero afecto teórico, sem qualquer expressão prática?
E será que aquilo a que verdadeiramente reagimos com entusiasmo e exaltação são às ideias, sobretudo às nobres ideias, às quais perdoamos todos os crimes cometidos em seu nome, por mais negros que sejam, e tanto mais perdoados serão quanto mais elevadas essas ideias forem?
E, finalmente, por que somos assim – por natureza ou por educação?

1 comentário:

akb disse...

mas há aqui uma coisa. o nazismo pode bem ser exemplificado pelo regime hitleriano, aliás, é isso mesmo. enquanto que o regime soviético, aquilo é comunismo? muitas vezes chamam-lhe estalinismo, leninismo, totalitarismo ou qualquer coisa que o valha. a inspiração poderá ser comunista mas o resultado prático é o quê? quero dizer, acho que o comunismo está melhor representado numa coisa tipo kibbutz ou outros modelos comunitários do que na urss ou na china.