terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

A ESQUERDA IMACULADA



A propósito das recorrentes atitudes e tomadas de posição da nossa esquerda, isto é, do PCP,
do BE e do PS, sobre os mais diversos factos, desde a intervenção a que estivemos sujeitos até
à recente farsa da Grécia, é oportuno recordar as observações de Peter Sloterdijk sobre a
esquerda, expressas na conversa com Alain Finkielkraut que está transcrita no livro intitulado
Les Battements du Monde.

Do seu capítulo 18, Para uma crítica da razão extremista, traduzo:

"A mentalidade da esquerda contemporânea parece-me marcada por uma inclinação para
a qual proponho o termo de auto-amnistia. A esquerda contemporânea é a parte da sociedade
que tem o privilégio de se perdoar os seus próprios erros. Se o laço profundo entre o dom e o
perdão era a grande temática surgida no campo da moral do fim do século, a esquerda
aproveitou essa descoberta para reclamar o dom da inocência em seu favor. Tudo é perdoado,
segundo ela, àqueles que tiveram a boa vontade de mudar o mundo. Tudo é permitido aos que
são a consciência.

(...)

Resta o insulto. (...) O insulto é a única coisa que sobreviverá da esquerda clássica - ou
melhor: a faculdade de insultar. O insulto é o resultado duma mistura bizarra: dum espírito de
combate e da procura da superioridade moral. Sem esse sentimento de superioridade, parece
difícil tomar a palavra.

(...)

É preciso não esquecer que o radicalismo de esquerda é uma mitologia do perdedor.
Quanto mais se perde, tanto mais se tem razão. Sem essa auto-justificação da boa consciência
da esquerda, esse radicalismo não funcionaria. A minha convicção íntima diz-me: de tanto
perder, eu sou moralmente superior ao que ganha."




segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

"O PÓS-ESCRITO COMUNISTA" de Boris Groys (1)



Boris Groys, nasceu na URSS em 1947 e emigrou em 1981 para a Alemanha. É professor universitário de filosofia da arte.
Publicou em 2006 um muito interessante livro de análise político-filosófica do comunismo, Das Kommunistische
Postskriptum, posteriormente traduzido em diversas línguas. Apesar da sua surpreendente tese sobre o fim do comunismo
na URSS e na China, não está publicado em Portugal. Parafraseando J.P. Sartre, é preciso não lançar no desespero a
intelectualidade esquerdista cá do burgo.
Da edição inglesa, The Communist Postscript de 2009, traduzo uns quantos excertos.
___________________________

Introdução

O assunto deste livro é o comunismo. A maneira de falar do comunismo depende do que se considera ser o comunismo. No
que se segue, considerarei que o comunismo é o projecto de subordinação da economia à política, afim de permitir que a
política actue livre e soberanamente. A economia funciona por meio do dinheiro. Trabalha com números. A política funciona
por meio da linguagem. Trabalha com palavras - com argumentos, programas e petições, mas também com ordens,
proibições, resoluções e decretos. A revolução comunista é a transcrição da sociedade do meio do dinheiro para o meio da
linguagem.
(...)
Os processos económicos são anónimos, e não expressados em palavras. Por esta razão não se pode discutir com processos
económicos; não se pode alterar a sua mentalidade, convencê-los, persuadi-los, usar palavras para os levar a alinhar
connosco. Tudo o que se pode fazer é adaptar o nosso comportamento ao que está ocorrendo. O falhanço económico não
tolera argumentos, tal como o sucesso económico não requer qualquer justificação discursiva adicional. No capitalismo, a
confirmação ou refutação última da actuação humana não é linguística mas económica. A força da linguagem é por isso
anulada.
(...)
A crítica do capitalismo não funciona no mesmo meio que o próprio capitalismo. Em termos dos seus meios, o capitalismo e a
sua crítica discursiva são incompatíveis e assim nunca se podem encontrar. A sociedade tem de primeiro ser alterada pela
sua linguistificação para poder ser objecto de qualquer crítica com significado. Assim podemos reformular a famosa tese de
Marx de que a filosofia deveria não interpretar o mundo mas mudá-lo: para que a sociedade possa ser sujeita a crítica, ela
primeiro tem de se tornar comunista. Isto explica a preferência instintiva pelo comunismo sentida por todos os dotados com
consciência crítica, pois só o comunismo executa a total linguistificação do destino humano e abre assim espaço para uma
crítica total.
(...)
A União Soviética avançou mais do que qualquer outra sociedade historicamente precedente para a realização do projecto
comunista. Durante os anos de 1930 toda a espécie de propriedade privada foi completamente abolida. A liderança política
ganhou assim a possibilidade de tomar decisões independentemente de quaisquer interesses económicos particulares. Mas
não se tratava apenas de esses interesses económicos terem sido suprimidos; eles simplesmente já não existiam. Cada
cidadão da União Soviética trabalhava como empregado do estado Soviético, vivia em casas que pertenciam ao estado,
comprava em lojas do estado e viajava através do território do estado em transportes operados pelo estado.
(...)



sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

OS DESPEITADOS "HOMENS DE PALAVRAS"


Uma espessa camada de eméritos políticos, quase todos ex-qualquer coisa nos seus respectivos partidos, afastados agora das alavancas  do poder, quer do que dispõe quer do que se opõe, anda esparramada pelos jornais e televisões, criticando acerbamente a pusilanimidade da oposição e a iniquidade da governação. 
O que os moverá a tal, para lá evidentemente do que lhes pagam os media que tanto ilustram? Será apenas um imperativo sentido de serviço público?
Recorramos a Eric Hoffer, respigando do seu livro "Do Fanatismo" algumas interessantes e elucidativas passagens sobre os que chama homens de palavras e ofensas.

Os homens de palavras são de vários tipos. Podem ser padres, escribas, profetas, escritores, artistas, professores, estudantes e intelectuais em geral.(...)
Seja qual for o tipo, há um anseio arreigado comum a todos os homens de palavras que determina a sua atitude para com a ordem dominante. É o anseio de reconhecimento; o anseio de um estatuto claramente demarcado acima do comum dos homens.(...)
Há um momento na carreira de quase todos os homens de palavras muito críticos quando um gesto deferente ou conciliatório do poder para com eles os poderá atrair a ficarem do seu lado. Em certa fase, a maioria dos homens de palavras está pronta a tornar-se oportunista e cortesã.(...)
É certo que assim que o homem de palavras formula uma filosofia e um programa, tende a não abrir mão deles e a ser imune a lisonjas e engodos.
Por mais que o homem de palavras em protesto se veja como paladino dos fracos e oprimidos, a ofensa que o anima é, salvo pouquíssimas excepções, privada e pessoal. A sua piedade desenvolve-se geralmente a partir de um ódio pelos poderes instituídos.

Creio que fica agora mais claro o que faz jorrar as ferozes críticas daquelas egrégias figuras. Ele haverá talvez excepções, mas olhem que não é fácil dar com elas.


segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

A NOSSA ENVIESADA DEMOCRACIA



Numa democracia europeia regularmente constituída, portanto sem laivos de totalitarismo, considerar-se-ia possível que um qualquer governo legitimamente eleito pudesse governar mais à direita ou mais à esquerda, conforme quisesse, sem que lhe fossem levantados quaisquer entraves, e desde que não violasse a legalidade democrática.

Ora isso não sucede em Portugal, o que coloca em dúvida o sermos uma democracia ocidental de pleno direito.

Na verdade, quando por cá, por força do resultado de eleições, sempre livres, acontecem uma maioria e um governo de direita, logo a esquerda fica em polvorosa, tratando os ora maioritários como se fossem autênticos usurpadores do poder. Imediatamente se desencadeia um vendaval resistente, em que vale tudo, intrigas, conspirações, insultos e assédios pessoais, desinformação, arruaças, manifestações ordeiras e desordeiras, greves políticas, incitações à revolta, apelos à violência e até, como ultimamente se tem ouvido, instigação a assassinatos. E, não receando o ridículo, chega-se agora ao mais rasteiro patrioteirismo, apelando ao orgulho nacional e ao varrimento do vil estrangeiro intrometido, isto por eminentes europeístas e por gente de esquerda, que surpreendentemente passou de internacionalista a acrisoladamente nacionalista.

Não tenho memória de, após o "Verão quente" de1975, se verem comportamentos similares de contestação da direita contra governações da esquerda, ficando-se aquela normalmente pela oposição nos locais próprios, por uma ou outra intriga de corredor e por manobras mediáticas.

A esquerda, em sentido lato, considera-se verdadeiramente a dona do país e do seu actual regime político; já antes do 25 de Abril de 1974 havia quem se considerasse dono do país, os do regime político então vigente, sendo os a ele desafectos maus portugueses. Não mudamos pois muito nos últimos 40 anos no que toca a mentalidades e tiques autoritários, quando necessário embrulhados em fervor patriótico.

Mas para lá do frenesim oposicionista atrás referido acresce, como agora se percebe muito bem, que a Constituição que temos limita, e muito, a liberalização da sociedade e da economia, obrigando a uma interpretação estatizante de ambas; ou seja, tal como a cor dos Ford T podia ser a que se quisesse, desde que fosse o preto, assim os nossos governos podem governar como quiserem, desde que seja à esquerda.

Para a nossa Constituição ser inequivocamente democrática não poderia, como mínimo, ter artigos blindados contra revisões, devendo pelo contrário prever a sua total revisão aproximadamente cada 20 anos (uma geração), não devia atribuir direitos económicos sem explicitar as condições que os viabilizam, e estaria entregue à guarda de um órgão competente directamente eleito e não dum arremedo de tribunal formado por arranjos partidários.

A democratização do nosso país está pois por concluir, por muito que a esquerda o negue.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011


Mário Soares, a inesgotável verborreia

                                                                                        [A cat can look at a king – prov. inglês]            


Mário Soares continua incansavelmente a trabalhar para a preservação da sua memória e do que pretende que seja o seu lugar na História, produzindo escritos após escritos. O último é uma autobiografia de 542 páginas, que se vem juntar à entrevista a Maria João Avillez, 3 volumes num total de 1345 páginas. E há ainda uma copiosa colecção de discursos, de intervenções (só as proferidas enquanto Presidente da República ocupam 10 volumes), e mais entrevistas, e artigos, e livros em colaboração, etc., totalizando muitos milhares de páginas. Tudo está certamente cuidadosamente guardado e catalogado na sua Fundação, à disposição dos inúmeros estudos e teses que virão a alimentar.
Segundo a recensão desta autobiografia, publicada no último “Expresso”, nela Mário Soares critica Cavaco, Sampaio, Eanes, Guterres e Barroso; Constâncio e Manuel Alegre são praticamente ignorados, de Ferro Rodrigues não fala, e Salgado Zenha continua imperdoado. Ah, mas José Sócrates é elogiado!
(Parafraseando um conhecido ditado - Diz-me quem elogias, dir-te-ei quem és…)
A Mário Soares devemos a frente determinada que fez a Álvaro Cunhal e ao PCP durante o PREC. E a isso ficou ele a dever todos os cargos e honrarias que desde então lhe propiciamos, mais a sólida reputação de ser um indefectível democrata.
Mas, sê-lo-á tanto assim?
A oposição a Salazar e ao Cunhal seria de tal prova; mas o que dizer das suas maquinações e conspirações contra Eanes, Cavaco, Salgado Zenha e Manuel Alegre, personalidades que não se pode sem forçar a nota classificar como não-democratas? Foi a sua paixão democrática que o motivou, ou apenas a vontade de evitar que houvesse vultos que com ele pudessem ombrear, diminuindo assim a sua estatura na história do pós-25 de Abril? Parece ter havido nestes casos muito de objectivos pessoais e muito pouco de convicções democráticas.
Mário Soares teve um período de grandeza, surgindo então como um grande estadista e homem de elevados princípios. A sua carreira posterior desmereceu-o, mergulhando em politiquices, intrigalhadas, baixas conspirações, facadas nas costas, demagogias e populismos vários, que o apoucaram.
Mário Soares é reconhecidamente vaidoso, e ostenta perante os seus adversários uma arrogância escarninha; a modéstia e a humildade não se contam de todo entre as suas virtudes.
“Há evidentemente muitas e grandes virtudes democráticas – entre elas a veracidade, a misericórdia, a tolerância, a coragem – mas a virtude cardeal da democracia é a humildade” (John Keane)
Pode Mário Soares em consciência reconhecer-se nesta afirmação?


quarta-feira, 30 de novembro de 2011

O louco norueguês e os lúcidos islamistas



Uma equipa de psiquiatras noruegueses acaba de declarar Breivik, o terrorista que este ano assassinou 77 pessoas em Oslo, inimputável, pelo que não deverá ir a julgamento mas ser internado num manicómio. A decisão ainda terá de ser validada por um tribunal. Se aprovada, consegue-se assim uma privação perpétua da liberdade, em vez dos 21 anos de prisão a que no máximo poderia ser condenado pela lei norueguesa, pode ser submetido a tratamento para melhorar a sua perturbada condição, e evitam-se as suas eventuais proclamações estapafúrdias durante  julgamento. E se mesmo assim for levado a tribunal, como já vai rotulado de demente, e a palavras loucas, orelhas moucas, fica tudo por conta da sua insanidade. Pois só pode ser louco quem naquela pacífica nação de igualitários cidadãos, embora descendente de ferozes vikings,  fez o que ele fez.
(Esta medida não deixa de lembrar o tratamento reservado na URSS pós-estalinista a alguns dos ditos dissidentes -  internamento psiquiático. Quem então manifestasse oposição ao regime soviético, claro que só poderia ser ou perverso ou louco, donde campo de concentração para os primeiros e tratamento psiquiátrico para os outros. Uns quantos sobreviveram e contaram como era).
Comparemos esta orientação com a adoptada em anos recentes em Espanha e Inglaterra para com os terroristas islâmicos que puseram bombas em comboios, metros e autocarros, matando centenas de pessoas. Foram presos, os que foi possível apanhar, levados a julgamento e condenados. Foi sequer colocada a hipótese de os considerar loucos, e daí inimputáveis? Não, de forma alguma, isso seria insultuoso; a sua lucidez e clareza de propósitos não foi alvo de tamanho enxovalho! Então já não bastava o opróbrio de serem levados a julgamento por infiéis, teria ainda por cima de ser cometida a infâmia dos insultarem, questionando a racionalidade dos seus objectivos? Tanto mais que vários desses objectivos, tais como antiamericanismo, o anticapitalismo e o antissemitismo, são apadrinhados por largos sectores da opinião pública ocidental, a malta dos não concordam. mas compreendem...  
Donde os juízes ingleses e espanhóis, com grande sabedoria e não menor prudência, considerarem os terroristas islâmicos imputáveis, logo dignos de serem julgados pelas civilizadas e benignas leis penais dos países visados pelos seus atentados.
Felizmente reinou nestes casos o bom senso, e um sóbrio e comedido julgamente bastou para com humanidade punir os assassinatos cometidos.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

O património imperecível do salazarismo.



Fátima, Futebol e Fado: eram no tempo do Salazar os três efes, todos maiúsculos, todos desdenhosamente referidos pelos bem-pensantes de então, fossem ou não da cor política vigente.
Com o 25 de Abril feneceram os efes quase que por inteiro, tendo-se só aguentado, um pouco murchito, o futebol. Mas este, com o fim do PREC, readquiriu rapidamente o seu anterior fulgor, senão mesmo um ainda maior. Fátima em breve acompanhou essa trajectória de recuperação, não tendo embora voltado ao esplendor de antigamente, devido também à crescente descristianização do país.
Apenas o fado tinha recuperado até agora apenas um pequeno efe, ajudado por vozes jovens, caras novas e letras refrescadas, livres dos cediços fidalgos e toiradas, vielas e varinas, e glorificados fadistas irremediavelmente condenados ao seu fado.
Mas eis que, graças à UNESCO, esse pequeno efe readquire a sua anterior maiusculidade, refazendo-se assim a trindade tradicional da nossa vivência colectiva espiritual .
Donde se poderá concluir que os três efes não eram tanto assim  uma invenção da propaganda salazarista, mas corresponderão a algo de mais duradouro que por cá existe.
O futebol alimentará as nossas ânsias gregárias, quando a equipa é a nacional, e as mais primárias pulsões tribais, propiciadas essas pelo clube do coração. Fátima claro que fornecerá o suprimento religioso a quem ainda carece de tal maná. E por fim o fado, esse ficará para as emoções artísticas, potenciadas agora pelo orgulho, que sempre nos desvanece, do seu reconhecimento, mesmo que imaterial, pela restante humanidade.
Na verdade, de que mais precisaremos para nos sentirmos, como nação, espiritualmente realizados?