domingo, 23 de Agosto de 2009

A via compassiva para o petróleo líbio

A Inglaterra, pela mão do governo autónomo da Escócia, acaba de libertar Abdul Baset al-Megrahi, dos serviços secretos líbios, o único culpado jamais identificado pelo atentado terrorista que derrubou em 1988 um avião sobre a vila escocesa de Lockerbie, causando 270 mortos, a maior parte dos quais norte-americanos, e que tinha sido julgado e condenado a prisão perpétua.
Invocaram para esta libertação razões humanitárias, dado o preso ter, supostamente, um cancro em fase terminal e darem-lhe apenas mais três meses de vida.
A verdade é, obviamente, outra. Foi um puro exercício de real politik, e as alegadas razões humanitárias são só a habitual capa hipócrita, inevitável imagem de marca da política da velha Europa, para engano de cidadãos crédulos.
Esta libertação faz parte dos acordos negociados com a Líbia para descongelar as suas relações com o Ocidente, encetadas há mais de 2 anos pelo Tony Blair, e que visam sobretudo reabrir as vastas e inexploradas reservas do petróleo líbio às companhias ocidentais, e para começar à BP, com investimentos já previstos de 450 milhões de libras, à Exxon e à Chevron.
Os dois artigos seguintes do The Sunday Times, aqui e aqui, explicam bem a coisa.
Só as enormes manifestações de júbilo à chegada do homem à Líbia é que vieram perturbar esta manobra política anglo-americana, que se pretendia discreta, como convém à caridade exercida por almas bem formadas, deixando-a demasiado exposta.

quarta-feira, 19 de Agosto de 2009

Valor nutritivo dos alimentos orgânicos


O American Journal of Clinical Nutrition irá publicar este ano um estudo feito por uma equipa de técnicos e cientistas ingleses, financiado pela UK Food Standards Agency, elaborado com o objectivo de se avaliar quantitativamente as diferenças de conteúdo nutritivo entre os alimentos orgânicos e os produzidos de forma convencional, e no qual se fez a revisão de mais de cinquenta mil artigos, publicados ao longo de 50 anos, sobre o assunto.
A conclusão: não foi evidenciada qualquer diferença na qualidade nutritiva entre alimentos orgânicos e convencionais.
O resumo do artigo a publicar pode ser lido aqui.
Claro que esta conclusão atraiu sobre os autores do estudo as iras dos fundamentalistas ambientais; vejam este artigo do Independent.

terça-feira, 18 de Agosto de 2009

Como era bela a Grande Depressão,


a de agora, a nossa, a que viria livrar-nos do capitalismo, do neoliberalismo, da sociedade de consumo, dos financeiros ávidos e dos banqueiros corruptos, dando-nos em troca Estados poderosos e socialistas, de preferência não democráticos, e um fraterno mundo multicultural em vez deste globalizado horror.
Mas eis que poucos meses volvidos sobre a sua proclamação, começa esta Grande Depressão a minguar, a encolher, já mal chega a Pequena Depressão, talvez seja mesmo apenas e só uma recessão, mais uma, a juntar ao rol das que vão pontuando a incessante marcha para a frente e para cima da sociedade capitalista.
[Embora motivada por outro assunto, fica a propósito transcrever aqui esta boutade do José Cutileiro, no Expresso do passado fim-de-semana: "(...) alguma esquerda (que) se recusa a admitir que a tragédia de ser explorado pelo capitalismo não é nada comparada com a tragédia de não ser".]
Até mesmo o Paul Krugman, sumo pontífice dos economistas de esquerda norte-americanos (que está para a Economia e o Nobel que lhe deram como o Michael Moore está para a 7ª Arte e o Grande Prémio de Cannes com que o brindaram) já veio conceder o não-evento da Grande Depressão II, embora atribuindo este insucesso à pronta intervenção do "Big Government"; há que salvar a cara.
E só já se discute agora se a recuperação será em V, ou em U, ou em W.

Lá voltaremos pois ao neo-liberalismo (ou passará a ser neo-neoliberalismo, para que não se diga que nada se alterou?), com protestos de olho severo e mão pesada sobre os financeiros e seus desmandos, até que os políticos deixem que o crédito à habitação, ao automóvel e ao consumo escorra de novo fácil, abundante e desreguladamente, pois como é sabido consumidores felizes dão eleitores agradecidos (veja-se a propósito, aqui, o artigo "The legacy of the Clinton bubble", publicado na Dissent, revista da esquerda norteamericana, sobre as origens "democráticas" do subprime, que veio a provocar a presente crise; o grande Bill foi na verdade o deregulator-in-chief).

segunda-feira, 10 de Agosto de 2009

Reality Show na Coreia do Norte


A primeira série dum novo formato de reality show, misto de Survivor com Big Brother, foi estreado com grande sucesso na Coreia do Norte. Numa co-produção do Partido Democrata dos EUA e do Partido dos Trabalhadores da Coreia, começou em Março deste ano com a entrada nesse país de duas jornalistas americanas, da Current TV do Al Gore, e terminou no passado dia 5 de Agosto com uma retumbante vitória de Kim Jong Il.
Nem a entrada no show, já no seu final, dum concorrente de peso, o Bill Clinton, que acabou remetido para o segundo lugar, permitiu roubar o merecido triunfo ao Querido Líder.
O magnífico primeiro prémio que ganhou compreende, entre diversos outros brindes de menor importância, negociações bilaterais com os EUA sobre armas nucleares e a garantia de poder sossegadamente legar o país e o regime ao seu filho e sucessor, dando assim continuidade a um interessante estalinismo dinástico.
Para o Bill Clinton apenas ficou o prémio de consolação: o regresso aos EUA com as duas jornalistas/figurantes, a bordo dum Boeing 737 da Shangri-La Entertainment, fornecido pelo produtor de Hollywood Steve Bing.
Tudo portanto, e muito adequadamente, em registo de showbiz.
Aqui fica, para a posteridade, a foto dos dois finalistas.



(AP Photo/ Korean Central News Agency via Korean News Agency)

quarta-feira, 29 de Julho de 2009

También tu, Raúl?!



Poderia ter exclamado o Fidel, ao ouvir a passagem abaixo do discurso do irmão, nas celebrações do 56º aniversário do assalto ao quartel de Moncada:


¡La tierra está ahí, aquí están los cubanos, veremos si trabajamos o no, si producimos o no, si cumplimos nuestra palabra o no! No es cuestión de gritar Patria o Muerte, abajo el imperialismo (Aplausos), el bloqueo nos golpea y la tierra ahí, esperando por nuestro sudor. A pesar de que los calores son cada vez mayores, no queda más remedio que hacerla producir. Creo que estamos de acuerdo (Exclamaciones de: "¡Sí!" y aplausos).

(transcrito do Granma, orgão oficial do Comité Central do PC de Cuba)


É o panorama económico seguinte que leva Raul de Castro a pedir aos cubanos para se deixarem de slogans revolucionários e de queixas quanto ao embargo dos EUA, e se consagrarem à agricultura:
- Cuba importa cerca de 80% dos alimentos que consomem os seus 11,2 milhôes de habitantes, enquanto que mais de metade dos seus solos aráveis estão ao abandono. Está em curso um programa de entrega de terras a agricultores e suas organizações, tendo já sido satisfeitos 82.000 pedidos de um total de 110.000 apresentados, correspondendo a uma entrega até à data de 690.000 ha, aproximadamente 39% da área desaproveitada. E o preço internacional da principal exportação cubana, o níquel, baixou de 54.000 para 10.000 USD/ton, num cenário também de quebra do turismo.


É mais uma machada no socialismo real, e o dealbar de uma nova aurora, desta feita capitalista.
Felizmente que nós por cá, alheados de tudo isto, como se de nada soubéssemos, temos o PCP e o BE para manter aceso o fogo sagrado do anti-capitalismo e da economia estatizada.
E há quem os leve a sério e vote neles!

terça-feira, 28 de Julho de 2009

Obama unplugged



O Obama tem de vez em quando de falar em público "desligado da corrente", isto é, sem ter em frente dos olhos um tele-ponto onde desfila um discurso, por definição sempre histórico.
Nessas ocasiões fala hesitante e pausadamente, a retórica esfuma-se, a eloquência desaparece e a asneira sai. E já lá vão várias.
Segundo um recente balanço do obamófilo, e portanto insuspeito, New York Times:

- uma piada sobre as suas fracas aptidões para o bowling, que só o qualificariam para os Jogos Paraolímpicos. Inevitáveis desculpas se seguiram.

- uma outra piada, de mau gosto, sobre a Nancy Reagan, a quem teve de telefonar a desculpar-se (e a quem disse, segundo a senhora depois contou, que na verdade estava a pensar na Hillary e não nela quando disse a tal laracha...)

- ao criticar os executivos de empresas em dificuldades, que abichavam no entanto grandes bónus, afirmou que depois os mesmos iam participar em conferências luxosas em Las Vegas, o que levou ao cancelamento de inúmeros eventos nessa localidade; teve em seguida de receber os indignados responsáveis pela hotelaria dessa cidade, para tentar remediar a coisa.

- meteu-se a opinar sobre jogadores, tácticas e equipas de basquetebol, causando evidentemente diversos incómodos.

- e recentemente chamou estúpida à polícia de Cambridge, Mass., o que o obrigou a posteriores e diversas acções de apaziguamento.

Mas esta série de impropriedades talvez seja devida ao seu convívio com o vice-presidente Joe Biden, que há dias declarou que a Rússia era uma nação fraca, dotada duma economia emurchecida, que finalmente teria de se curvar aos interesses americanos; isto pouco depois de o Obama lá ter estado num registo de grande suavidade.

A taxa de aprovação do Obama caiu nos seis meses que leva de presidente de 63% para 56%, e a de desaprovação subiu de 20% para 39%, segundo a The Economist de 25 de Julho, onde também é citado um libertarian scholar, George Healy, autor dum livro intitulado "The cult of the presidency"; segundo esse autor o Obama corre o risco de acabar como um presidente falhado, e possivelmente o menos popular da era moderna.
O que evidenciaria, uma vez mais, que uma boa campanha de marketing, política ou comercial, nos pode levar a comprar como excelente o que não passa dum mau produto.

segunda-feira, 27 de Julho de 2009

O CO2 atmosférico causa o aquecimento global?

Admitamos que a maioria dos dirigentes políticos ocidentais de topo é composta por indivíduos inteligentes e bem informados, que sabem que a ligação entre as emissões de CO2 e o aquecimento global é duvidosa e muito provavelmente errada, sendo até mesmo contestável que se esteja a verificar esse aquecimento global.

O que os levará então a adoptar essa teoria como se ela fosse inequivocamente verdadeira?

Raymond Boudon (Os intelectuais e o liberalismo, 2005) retomou um conceito originalmente formulado por Vilfred Pareto, segundo o qual as teorias podem ser não apenas verdadeiras ou falsas, mas também úteis ou inúteis, dando portanto origem a quatro grupos classificativos.
As únicas teorias que são imediatamente objecto de rejeição generalizada são as falsas e inúteis; e as úteis, que são aquelas para as quais há procura, têm um poder de aceitação e difusão, mesmo que falsas, superior às verdadeiras para as quais não haja na altura procura.

A teoria de que há um aquecimento global e a sua causa principal é o aumento do teor de CO2 na atmosfera será um bom exemplo duma teoria útil, um precioso achado para os dirigentes dos países ocidentais, ao permitir-lhes lançar um ataque virtuoso a essas emissões, praticamente blindado contra críticas, com benefícios de diversos tipos.

Destacam-se os seguintes:

- abre um novo e gigantesco mercado, à escala mundial, de fabrico de instalações produtoras e de equipamentos consumidores de energia que não emitam CO2; negócios e empregos a perder de vista.

- gera uma enorme fonte de rendimentos para os governos, o da emissão e venda de licenças de emissão de CO2.

- faculta um novo meio de pressão comercial sobre outros países, que sejam considerados ambientalmente incorrectos, permitindo ou onerar as suas exportações com taxas de carbono ou recorrer a outras quaisquer restrições comerciais.

- satisfaz-se um importante e activo sector do eleitorado ocidental, o dos ambientalistas.

- cria mais um factor de condicionamento social, a juntar à saúde e à segurança das pessoas; para salvar a Humanidade e a Terra, o que não se pode exigir dos cidadãos?

- permite preparar desde já a substituição do petróleo, do gás natural e do carvão, dado o seu esgotamento mundial dentro de não muitos anos, sem criar alarme público e sem parecer estar a atacar directamente os interesses daqueles poderosíssimos carteis.

Dificilmente se imagina teoria politicamente mais útil; que interessa pois se é ou não verdade?